Como as grandes empresas realmente compram créditos de carbono

Com a proximidade do evento da COP30, os temas ambientais estão ainda mais evidenciados em ambientes corporativos e institucionais. As discussões sobre como tornar viáveis ações concretas voltadas à descarbonização, e sustentabilidade chegam necessariamente ao mercado de carbono.

Assim, nos últimos anos, o mercado de carbono foi inundado por promessas de digitalização total: plataformas automatizadas, marketplaces e soluções em blockchain que prometem facilitar a compra de créditos com um clique. Mas essa visão ignora uma realidade incontornável: grandes empresas não compram créditos de carbono como quem compra um produto online.

Créditos de carbono são ativos cada vez mais valorizados e por isso, alvo de especulações e fraudes em um mercado ávido por boas oportunidades. A escalada dos valores envolvidos requer atenção proporcional aos processos de validação e verificação da veracidade das informações e documentações apresentadas, visto ser um bem intangível e contabilizável (Código Civil art. 82 e 83, CPC 04 – Comitê de Pronunciamentos Contábeis).

Neste cenário, escala e governança mudam tudo. Imagine uma empresa que precisa compensar 4 milhões de toneladas de CO₂. Mesmo a US$ 10 por crédito, isso representa US$ 40 milhões, ou mais de R$ 200 milhões. Nenhum CFO ou conselho de administração aprovaria essa transação sem contratos formalizados e registrados, garantias jurídicas e financeiras, auditorias,  compliance e due diligence de 3ª parte, além de rastreabilidade e titularidade comprovadas. Ou seja, quanto maior o volume, menor o espaço para informalidade.

A blockchain é uma excelente ferramenta de registro e rastreabilidade, mas não substitui o contrato, nem garante segurança jurídica.  O parecer jurídico e a verificação independente dão validade legal e contábil à operação. O crédito de carbono é um ativo intangível ambiental e precisa estar certificado, validado e registrado conforme padrões internacionais (ISO 14064, ICMA, IFRS-S2). Sem isso, o ativo pode simplesmente não ser reconhecido nos balanços contábeis.

Para multinacionais, as regras são ainda mais rígidas.  No caso de empresas globais, a compra precisa seguir normas da matriz, com autorizações internas, governança de investimentos ESG e controles cambiais. Essas transações envolvem diretores, conselhos e auditores internacionais. Não é viável — nem responsável — que isso aconteça ‘via cartão de crédito’ por melhor que seja a plataforma.

Neste cenário, estruturas profissionais garantem a robustez das operações com montantes significativos. Estas operações exigem estruturação técnica, financeira e jurídica. Assessorias especializadas garantem que cada crédito tenha lastro real e verificado, esteja em conformidade legal e contábil, seja transacionado com segurança financeira e por fim gere valor reputacional e fiscal comprovável.

Essas camadas de complexidade são justamente o que protegem o comprador corporativo.

As plataformas têm papel importante para democratizar o acesso e viabilizar pequenas compras. Mas quando falamos em operações corporativas de grande escala, que envolvem centenas de milhões de reais e impactos reputacionais, a compra de créditos de carbono ainda não é uma transação totalmente digital — ela precisa ser uma operação estruturada.

Talvez haja em um futuro próximo, uma fase de transição, onde soluções digitais possam trazer todo o aparato operacional com mais usabilidade, mas serão fruto de evoluções a partir de maiores movimentações do mercado.

O futuro e a maturidade do mercado de carbono precisa da tecnologia a seu favor, mas ainda precisa ser pautado na integração entre técnica, governança e confiança. Toda a cadeia envolvida deve estar alinhada aos princípios de integridade ou não haverá um processo sustentável.

Antonio Morelli
Biólogo e Mestre em Ciências – CEO da Argustech
Especialista em Estruturação de Projetos Ambientais, CPR Verde e Mercados de Carbono

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